Joaquim Branco - Os Fundamentos Éticos do Cristianismo em Angola: Uma Análise Crítica



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Os Fundamentos Éticos do Cristianismo em Angola: Uma Análise Crítica

 Joaquim Branco Filipe Castro Pimenta

Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED-Huíla)

RESUMO: Este artigo centra-se nos fundamentos éticos do Cristianismo em Angola, por meio de uma análise crítica. O objetivo é refletir de forma aprofundada sobre os fundamentos éticos que sustentam o Cristianismo no contexto angolano, identificando suas raízes teológicas, sua influência nas práticas sociais e morais da sociedade bem como as suas implicações. A relevância da pesquisa reside no fato de que o Cristianismo tem sido historicamente apresentado como uma reserva ético-moral na sociedade angolana; contudo, observa-se que alguns líderes religiosos fazem uso instrumental dessa ética para manipular fiéis em situações de vulnerabilidade, visando o enriquecimento pessoal. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica e documental, com ênfase na análise de artigos científicos. Os principais resultados indicam que, embora o Cristianismo tenha introduzido valores como justiça, solidariedade e compaixão, sua aplicação prática em Angola enfrenta desafios decorrentes de práticas religiosas contemporâneas que distorcem seu conteúdo original. Esses valores e os desafios associados são discutidos criticamente à luz de autores como Boff (2005), Mounier (1976), Mana (2004), Mbiti (1997), entre outros.

Palavras-chave: Cristianismo, Ética, Angola, Religião, Sociedade, Cultura.

1. Introdução

O Cristianismo tem sido uma das forças mais influentes na formação da identidade moral e social em Angola. Desde sua introdução durante o período colonial, ele assumiu o papel de matriz ética para grande parte da população. Boff (2005), por sua vez, afirma que a ética cristã deveria se manifestar como prática de justiça, amor e solidariedade — valores que nem sempre se concretizam no cotidiano religioso angolano. Neste contexto, o presente artigo propõe uma análise crítica sobre como os fundamentos éticos do Cristianismo têm sido apropriados, reinterpretados ou distorcidos na prática religiosa contemporânea em Angola. Este estudo está delimitado do ano 2020 à 2025. A relevância do presente estudo reside na necessidade urgente de reavaliar criticamente o papel ético do Cristianismo em Angola. Como lembra Mounier (1976), uma ética verdadeiramente cristã deve ser personalista, ou seja, voltada para a promoção da dignidade do ser humano como fim em si mesmo, jamais como meio. No entanto, constata-se que líderes religiosos têm, por vezes, usado o discurso cristão como ferramenta de controle, condicionando bênçãos a ofertas, criando dependências espirituais e explorando emocionalmente os mais vulneráveis. Boff (2005) insiste que uma fé autêntica deve libertar e humanizar, nunca subjugar. Assim, esta pesquisa se justifica como contribuição para o resgate da integridade ética da religião cristã no espaço angolano. Tem como objetivo analisar criticamente os fundamentos éticos do Cristianismo em Angola, tendo em vista sua trajetória histórica, suas bases teológicas e sua aplicação nas práticas religiosas contemporâneas. Como hipótese estrutura-se que a ética cristã tradicional, centrada na justiça, no amor e na compaixão, não tem sido plenamente praticada por muitas lideranças religiosas em Angola; A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e crítica. Será realizada uma revisão bibliográfica e documental, com foco em produções acadêmicas nas áreas de teologia, filosofia, ciências da religião e sociologia da religião. A análise fundamenta-se em autores que refletem criticamente sobre a ética cristã e sua aplicação em contextos africanos, como Boff (2005), Mounier (1976), Mbiti (1997) e Kä Mana (2004). A abordagem hermenêutica-crítica permite compreender os significados atribuídos à ética cristã na prática social e eclesial em Angola. Os fundamentos éticos do Cristianismo são analisados à luz de diferentes correntes teóricas como: Boff (2005) propõe uma ética cristã libertadora, que deve ser vivida como compromisso com os pobres e marginalizados; Mounier (1976) apresenta o personalismo como alternativa ética centrada na dignidade da pessoa humana; Kä Mana (2004) discute os desafios do Cristianismo africano frente à corrupção moral e à deslegitimação da autoridade religiosa; Mbiti (1997) contribui com a análise da intersecção entre a teologia cristã e as tradições africanas, defendendo uma ética comunitária e relacional.

O presente artigo está estruturado em duas secções, na primeira desenvolveu-se a questão das raízes históricas da teologia cristã em Angola, em segundo fez-se uma análise crítica dos fundamentos éticos cristãos.

1. As Raízes Históricas da Teologia Cristã em Angola

A teologia cristã em Angola está profundamente ligada ao processo de colonização, evangelização e construção do poder político-religioso. Desde o século XV, com a chegada dos missionários portugueses, o Cristianismo foi introduzido como parte do projeto civilizacional europeu, impondo-se sobre as tradições religiosas locais. Conforme Mbiti (1997), esse processo representou uma ruptura com a espiritualidade africana autóctone, embora, ao longo do tempo, as populações locais tenham reinterpretado os conteúdos cristãos à luz das suas próprias cosmologias.

O Reino do Congo, por exemplo, é frequentemente citado como um dos primeiros espaços de assimilação do Cristianismo, embora tal assimilação tenha sido estratégica e diplomática, muitas vezes instrumentalizada pelos próprios soberanos africanos em busca de alianças políticas. Essa fusão inicial entre poder religioso e político marcou profundamente a forma como o Cristianismo se enraizou em Angola. Como destaca Kä Mana (2004), a história do Cristianismo na África é marcada por uma tensão constante entre libertação e dominação — uma religião que ora aparece como força de resistência, ora como mecanismo de opressão. Além disso, o processo de inculturação do Cristianismo na realidade angolana foi limitado por uma teologia missionária que pouco valorizava as contribuições culturais locais. Mbiti (1997) denuncia a postura eurocêntrica das missões que desconsideravam os valores morais e espirituais africanos, promovendo uma substituição forçada da identidade religiosa. No entanto, essa imposição não foi total: o sincretismo e a criatividade religiosa do povo angolano permitiram uma ressignificação da fé cristã, que se expressa, até hoje, em formas populares de religiosidade profundamente enraizadas no cotidiano das comunidades.

Com a independência de Angola em 1975 e o fim da hegemonia colonial, esperava-se uma revalorização crítica do Cristianismo. Contudo, como observa Mana (2004), o vácuo deixado pelas instituições tradicionais e o colapso do Estado durante os anos de guerra civil permitiram o florescimento de novas formas de religiosidade, especialmente o crescimento exponencial de igrejas neopentecostais. Essas igrejas, embora muitas vezes apresentem uma teologia emocionalmente envolvente, tendem a enfatizar um discurso de prosperidade individual e sucesso pessoal, esvaziando o compromisso social e ético que caracterizava, segundo Boff (2005), o verdadeiro núcleo do Cristianismo.

2. Análise Crítica dos Fundamentos Éticos do Cristianismo em Angola

O Cristianismo professa valores éticos universais como a justiça, o amor ao próximo, a solidariedade, o perdão e a promoção da dignidade humana. Esses valores, de acordo com Leonardo Boff (2005), não podem ser dissociados de uma prática de libertação e engajamento social. Para Boff, a ética cristã se realiza na medida em que se compromete com os pobres, com os marginalizados e com a transformação das estruturas injustas da sociedade. No entanto, a aplicação prática desses fundamentos éticos em Angola é, muitas vezes, contraditória. Há um divórcio crescente entre o discurso ético cristão e a realidade das práticas eclesiais. Líderes religiosos que deveriam ser referência moral tornam-se, em alguns casos, agentes de manipulação espiritual. Kä Mana (2004) alerta para a "burocratização da fé" e a "mercantilização do sagrado", onde o culto e a espiritualidade são convertidos em produtos religiosos negociáveis. Essa lógica transforma o espaço religioso em um mercado simbólico, onde a bênção, o milagre e o sucesso se tornam moedas de troca. Emmanuel Mounier (1976), filósofo do personalismo, oferece um contraponto importante: para ele, toda ética que se pretenda cristã deve estar centrada na pessoa como fim, jamais como meio. A ética personalista exige relações de respeito, responsabilidade e reciprocidade. Quando o líder religioso usa a fé do fiel como instrumento de enriquecimento ou dominação, viola-se esse princípio fundamental, e a religião perde seu valor ético.

Além disso, muitos discursos religiosos em Angola promovem uma culpabilização excessiva dos fiéis, associando sofrimento a maldição espiritual e atribuindo a pobreza à falta de fé ou dízimo. Boff (2005) critica duramente essa teologia da retribuição, pois ela ignora as causas estruturais da desigualdade social e transfere a responsabilidade moral do sistema para o indivíduo. Essa lógica justifica a passividade e desmobiliza a ação coletiva transformadora. Mbiti (1997), ao tratar da moral tradicional, sublinha que a ética cristã é eminentemente comunitária. A pessoa é valorizada em função da comunidade: “Eu sou porque nós somos”. Esse princípio entra em conflito com a ênfase individualista de algumas teologias contemporâneas, que ignoram os laços comunitários e o bem comum. Assim, ao importar modelos teológicos estrangeiros, muitas igrejas angolanas acabam por desfigurar a ética cristã em favor de um pragmatismo religioso centrado no lucro e na performance espiritual. Portanto, a análise crítica dos fundamentos éticos do Cristianismo em Angola revela que, embora os valores cristãos tenham potencial de transformação moral e social, sua expressão prática encontra sérios desafios. É necessário, como propõe Boff (2005), uma reinterpretação ética do Cristianismo, à luz das necessidades concretas do povo angolano, com base no compromisso social, na justiça e na valorização da vida.

Conclusão

A análise dos fundamentos éticos do cristianismo em Angola revelou uma relação complexa entre fé, cultura e história. Desde a introdução do cristianismo pelos missionários europeus, os valores cristãos passaram a interagir com as tradições locais, resultando num campo ético híbrido, marcado por tensões, adaptações e resistências. Embora a ética cristã tenha trazido consigo princípios universais como a justiça, a solidariedade e o amor ao próximo, a sua aplicação no contexto angolano nem sempre respeitou as identidades culturais e espirituais autóctones. Ao longo deste trabalho, verificou-se que a ética cristã em Angola só pode ser plenamente compreendida quando analisada à luz das dinâmicas históricas de colonização, evangelização e independência. Autores como Boff, Mounier, Mana e Mbiti ajudaram a evidenciar que uma verdadeira ética cristã, deve ser encarnada na vida do povo, valorizando a dignidade humana, a comunhão comunitária e os saberes tradicionais.

Assim, conclui-se que os fundamentos éticos do cristianismo em Angola devem ser constantemente revisitados e reinterpretados à luz dos desafios contemporâneos. Isso exige uma teologia crítica, libertadora e profundamente comprometida com o contexto sociocultural angolano. Somente por meio desse esforço será possível construir uma ética cristã que, mais do que repetir fórmulas importadas, responda de forma autêntica às necessidades espirituais e sociais do povo angolano.

Referências 

Boff, L. (1981). Igreja: carisma e poder (19ª ed.). Vozes.

Boff, L. (2003). Ética e moral: a busca dos fundamentos. Vozes.

Mana, K. (1999). Fondements et défis d’une éthique africaine. Presses de l’UCAC.

Mana, K. (2002). Cristianismo e poder político na África. Editora Sinodal.

Mbiti, J. S. (1997). Introdução à teologia africana (2ª ed., P. M. da Silva, Trad.). Paulinas. (Original publicado em 1969)

Mbiti, J. S. (1999). Religiões e filosofia africanas (P. M. da Silva, Trad.). Paulinas. (Original publicado em 1969)

Mounier, E. (2001). O personalismo (J. A. Widow, Trad.). Paulus. (Original publicado em 1949)

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Ferreira, M. (1987). Literatura africana de expressão portuguesa (2ª ed.). Instituto de Cultura Portuguesa.